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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O que o discurso de Madonna tem a ver com a sua empresa



Ao falar sobre tempo e envelhecimento, Madonna tocou
em um dos últimos tabus do nosso tempo: a mulher velha


MADONNA DISCURSA AO GANHAR O PRÊMIO "MULHER DO ANO NA MÚSICA", DA BILLBOARD, EM 2016 
(FOTO: REPRODUÇÃO/YOUTUBE)

Quando subiu ao palco nesta semana para receber o troféu de Mulher do Ano na Música, concedido pela tradicional revista Billboard, Madonna se parecia em tudo com Madonna. Irreverente, desbocada, atrevida. Inimputável, ela apanhou o troféu das mãos do jornalista e mestre de cerimônias da noite, Anderson Cooper, e disparou: "Ele já transou com uma banana". 


A piada provocou uma mistura de silêncio e risinhos abafados dos homens da platéia. Homossexual assumido desde 2012, Cooper reagiu como o gentleman que é. Circunspecto e elegante, ganhou distância e se dirigiu para a sombra, enquanto a estrela pop iniciava seus movimentos calculados e firmes.

Primeiro, largou o prêmio em cima do piano e, com décadas de desenvoltura, ajustou o microfone sem hesitação, na linha exata que dividia os hemisférios direito e esquerdo do seu corpo, como se estivesse prestes a cantar Like a Virgin. Até que, mais uma vez, soltou uma frase de chocante previsibilidade: "Eu me sinto bem melhor com algo duro entre as pernas". Menos silêncio, mais risinhos, dessa vez de meia boca, sobretudo de mulheres, parcialmente coradas. 

O anteato de Madonna, contudo, não forneceu nenhuma pista de sua peça principal: um monólogo inédito e comovente, que levou muitos presentes às lágrimas — e marejou seus próprios olhos azuis. Do alto dos seus 58 anos bem vividos, Madonna aproveitou a ocasião para fazer um balanço da sua jornada, que começou ainda adolescente, em Nova York. "Obrigada por reconhecerem minha habilidade em continuar minha carreira por 34 anos, encarando misoginia descarada, machismo, bullying e abuso. O que posso dizer sobre ser uma mulher dos negócios na música? O que posso dizer sobre ser mulher?", indagou ela, dentro de um brilhante, mas comportado terninho Gucci.


 
 Assim como a maioria das mulheres de sua geração, Madonna contou que começou sua carreira sem se preocupar, propriamente, com "questões de gênero". Assim como homens e mulheres de várias gerações, identificava-se com o masculino e o feminino representados por David Bowie. Ingenuamente, continuou ela, iniciou sua trajetória profissional acreditando que, naquele mundo, não existiam regras. Até que, wait a minute, percebeu que mesmo de meia arrastão, batom e bunda de fora, Prince, por exemplo, jamais foi chamado de puto ou satã -- adjetivos à exaustão aplicados ao seu nome. Ou seja, as regras existiam, sim, mas apenas para as meninas. E antes que alguém se levantasse para contestar seus argumentos e lembrar que ela posou nua, misturou religião com prostituição e simulou fazer sexo com seus bailarinos enquanto cantava por anos a fio, ela mesma o fez.

Madonna lembrou até das ácidas críticas que recebeu da feminista Camille Paglia, para quem o estilo da cantora objetificava a mulher e só servia para rebaixar a condição feminina. "Se você é uma feminista, você não tem sexualidade. Você a nega (...). Então, eu pensei, dane-se. Sou uma feminista má.” De sua coleção de controvérsias e subversões, ela disse que nada é comparável ao simples fato de ela estar entre nós, na ativa, firme e forte aos 58 anos.

Em dez minutos de discurso, Madonna fez caber as dez décadas do século XX. E, ainda conseguiu ser contemporânea, até porque falar de estupro deveria, mas não é assunto da Idade Média. Nem nos Estados Unidos, onde ela nasceu, nem no Brasil, onde uma mulher é violentada a cada 11 minutos, nem na Síria, onde famílias têm pedido autorização para matar filhas e evitar, assim, a sua violação por bárbaros da milícia do regime de Bassar al-Assad. Nem em lugar algum do mundo.

Ao falar sobre tempo e envelhecimento, Madonna também tocou em um dos últimos tabus do nosso tempo: a mulher velha. E não nos custa lembrar que Estados Unidos e Brasil alternam as posições 1 e 2 no ranking de países com maior número de cirurgias plásticas do mundo — mais de 80% delas, claro, realizadas por mulheres da população economicamente ativa, de acordo com a International Society of Aesthetic Plastic Surgery.

Desta vez, o discurso de Madonna chocou porque nos acostumamos a pensar, erroneamente, que existe uma espécie de salvo-conduto para quem vive de arte. Ao menos para os artistas pertencentes à sua casta. Mas, ao que parece e, de acordo com o seu relato, isso não existe. O showbusiness, ela bem nos lembrou, é bastante parecido com qualquer outro business no que diz respeito às mulheres. Ou alguém está acostumado a ver senhoras com mais de 50 anos circulando pelas empresas?

No mundo corporativo, age is definitely not just a number. Nos conselhos de administração, por exemplo, onde cabelos brancos podem valer ouro, elas não passam de 7%. Se descontadas as herdeiras, 4%. 

No Velho Mundo, contudo, uma boa-nova para este fim de 2016 é a lista inédita elaborada pelo jornal inglês Financial Times, com o mesmo pretexto de apontar as "Women of the Year". Mas, desta vez, na política, nos esportes e na economia, incluindo desde venerandas como Theresa May, Hillary Clinton e Dilma Rousseff (sim, a FT fez uma entrevista com ela), até jovens talentos como a ginasta americana Simone Biles e a executiva chinesa Jean Liu.

Madonna arrematou seu discurso aconselhando as mulheres a procurarem modelos. "Devemos começar a apreciar o nosso próprio valor. E o valor de cada uma. Busquem mulheres fortes, para serem suas amigas, para se alinharem com elas, para aprenderem com ela, para se inspirar, para colaborar com ela, para apoiar, para ser iluminada".

Oxalá tenhamos mais modelos e mais Madonnas dentro e fora das empresas em 2017.

* Sandra Boccia (@sandraboccia) é diretora de redação de Pequenas Empresas & Grandes Negócios, colunista da CBN e pesquisadora de gênero em empresas de todos os tamanhos. Assistia a sua palestra sobre o tema no TEDx.

Época Negócios
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